oklima em verso e prosa
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Textos


    
AS CARTAS

                                                                          Odir, de passagem

          As cartas não lhe faziam bem. Aliás, deixavam-no depressivo, seja qual fosse o tipo e a feitura. As de baralho causaram-lhe perdas irreparáveis. Uma carta de fiança, para socorrer um amigo, quase que o leva a falência. As cartas quiromânticas de tarô e dos búzios jamais pontificaram as previsões. Por isso se desfizera de quase todas, somente lhe restando alguns ensaios s de amor, reféns de datas significativas que de há muito perderam o significado próprio.
          Tentou rememorar algumas que escrevera ou que houvesse recebido. Matutou na memória mas ela estava distante dos pensamentos presentes. Rondou as estantes da sala e do quarto, resolvendo revolver seus empoados arquivos. Apenas cópias de algumas cartas remetidas, quase todas finalizando romances ou se despedindo de sonhos findos, restaram dos tantos amores decantados em prosa e verso. Versos finais e palavras derradeiras dedicadas aos amores morituros. Compulsou-as, uma a uma. Dizia a primeira, em seu final:

          “O nosso amor foi um sonho, teve o tempo que lhe coube e, sendo sonho, teve a leveza da pluma, a força dos ventos e a fragilidade dos cristais. Foi um sonho, um sonho e nada mais”.

          Uma outra dizia da revolta e da inconformidade, protestando indagante:

          “Como me podem cegar, os olhos que me alumiam? Como me podem ferir, os braços que me abraçam? E como pode pensar em verdade, a mente que me falseia?” -.e terminava (ainda agora se dando conta da certeza) com a confissão do quanto é difícil esquecer a mulher amada: “Como poderei esquecer o danado do teu cheiro?”

           Reviu um apelo escrito à amada distante para ser ao menos lembrança, num clamor de esperança ao instante final:
         
          “Peço-te, por fim, que nunca esqueças que eu te amei com toda pureza, com uma imaculável e indizível pureza!”.

          Mais adiante, resistindo à mágoa de um adeus, abria o coração e se declarava totalmente liberto em seu mundo interior: 

          “Aprendi com o tempo que a vida é a arte de gerenciar instantes. Daí, fazer da mágoa o momento mágico de um sorriso, é apenas questão de querer”.

           A alguém que lhe fora precisa na emoção confessa, revelava-se, sensitivo:

          “As palavras bonitas poucas vezes são escritas. Derivam sempre de um coração puro, do transparente da alma, da calma do corpo e do sossego da mente. E se elas são raras no escrever, que direi eu no sentido de respondê-las, de catar, letra por letra, na ponta dos meus dedos, os segredos de meus sentimentos ?”.
 
         Em meio às cartas, alguns versos escritos, talvez para compor o espaço esgarço do amor desfeito no feito da prosa. Talvez para fazer da prosa um canto novo, uma invocação mística às ninfas das águas e das terras para tê-las como conselheiras de seus versos, purificando-os e os tornando fecundos de mundificantes paixões. Ou talvez para cantar o pranto de um instante dorido de olhares ferinos em seus olhos feridos de antiga paixão. Leu o primeiro, escrito às pressas em papel avulso, acompanhando, na memória, os espaços de cada lance da visão de uma musa que se fez difusa numa tarde sem adeus, marcada pela pressa dos seus passos de nunca mais voltar. Lembrou-lhe o rosto mas desmemorou do nome:

              " QUE OLHOS ERAM OS TEUS?

               Que olhos eram os teus,
               que em mim passaram?
               Que olhos eram os teus,
               que me invadiram?
               Que olhos eram os teus,
               que me guiaram?
               Que olhos eram os teus,
               que me seguiram?
               Que olhos eram os teus,
               que me inspiraram?
               Que olhos eram os teus,
               que me iludiram?
               Que olhos eram os teus,
               que me deixaram?
               Que olhos eram os teus,
               que me traíram!
               Que olhos eram os teus
              que me mataram!"

          Um outro poema, em folha de caderno amarelecida pela guarda do tempo - a assimetria das marcas de suas dobras aparentando rugas -, parecia dar continuidade à mesma história de uma musa de rosto sem nome:

              " AS FLORES DE MEU JARDIM

               Sinto a ausência das mãos que plantam rosas
               nos fronteiros das portas e janelas.
               Das mãos que plantam dálias amarelas
               e cultivam as orquídeas mais formosas.

               Fazem falta os pincéis e as aquarelas
               dos artistas de telas caprichosas.
               Do arco-íris as cores majestosas
               que colorem meus céus ante as procelas.

               Da vida assisto aos tristes dissabores,
               lembrando a despedida dos amores
               na saudade que o tempo não levou.

               Diante de horizontes tão sem cores,
               porque meu mundo não se fez de flores
               eu carrego um jardim por onde vou."

         Que bom saber que os contratempos ainda lhe deram tempo para falar de flores! Apesar das flores terem sido fragrantes parceiras suas nos passeios das ruas e nas visões das janelas, evitava sempre fazê-las presentes no verso e na prosa para não invocar as musas que se distaram de corpo e alma para serem lembranças de perfume e cor:

               “Se no fim da amizade
                 uma trova a gente tece,
                 a gente esquece a saudade
                mas da trova não esquece”

     Ou, ainda:

               “Se o amor que te dei está prescrito,
               o melhor que tu fazes, acredito,
               é dispensar meus versos. E, dispersos,

              seja silêncio o que rezei contrito,
              desluzam as luzes vindas do infinito,
              sejam morte e silêncio esses meus versos!”

     E na última carta, escolhida ao acaso:

                "Esquece-te de mim, amada amante!
               O tempo nos separa. Já perdi
               a fúria de te amar a todo instante.

               Esquece-te de mim, que eu esqueci
               do sonho de nós dois levar avante.
              Ó musa, me perdoa, envelheci!"


       De repente, ouviu o toque da campainha e foi abrir a porta. Era o carteiro. Temendo ser destinatário de mais uma carta de amor, e sabendo de sua má sorte com elas, pediu que escrevesse no verso do envelope: “mudou de endereço”.
E sem mais coragem de correr os arquivos, enclausurou, de vez, o passado, para evitar as recordações, pois, segundo Alcides Carneiro, “Recordar não é viver, porque recordar é viver de lembranças, e viver de lembranças é morrer de saudades!”.
 


Odir, de passagem

  
oklima
Enviado por oklima em 15/05/2010
Alterado em 29/10/2010
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